

UM POÇO DE POLÊMICAS
Protestar, ocupar, parar e resistir. A vida sindical parecia não trazer outros desafios para Wilson Santarosa e seus companheiros, líderes de jornadas que paralisaram refinarias e campos de produção da Petrobras nos anos 80 e 90. A cada crise, fosse um vazamento ou uma plataforma afundada, lá estavam eles, tentando alimentar o noticiário com denúncias.
Mas os tempos mudaram, e os desafios também. Hoje, pelo menos 22 deles saltaram das assembleias e dos piquetes para postos estratégicos na estatal.
Juntos, formam a república sindical que movimenta uma poderosa máquina política, presente em projetos sociais de 938 prefeituras, no comando do segundo maior fundo de pensão do país e do programa do biodiesel.
A lista, levantada pelo GLOBO, aponta ex-sindicalistas na presidência e nas gerências de Gás e Energia, Comunicação Institucional e Recursos Humanos da Petrobras, além da Transpetro e da direção da Petros, fundo de pensão com 64 mil participantes ativos e patrimônio de R$ 47 bilhões. Dos 22 nomes, egressos da Federação Nacional dos Petroleiros (FUP) e da Articulação Sindical, versão da corrente majoritária petista no sindicalismo, 17 são vinculados ao PT — como ex- candidatos, ex-colaboradores de governo, exparlamentares e doadores de campanha — e um ao PCdoB.
A maioria do grupo militou nas bases de São Paulo e Rio de Janeiro, mas há também ex-dirigentes da Bahia e do Ceará. Nas greves de 1983, ano da fundação da CUT, e principalmente de 1995, quando os petroleiros pararam a empresa por 32 dias, eles forjaram a fama de “ponta firme”, gíria sindical para militante determinado e confiável. Três deles chegaram a processar a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Um, inclusive, acompanhou militantes do MST na invasão da sede da ANP no Rio.
Do discurso inflamado, porém, nada restou. No poder, o grupo trocou o megafone pelos ternos e os jornais do sindicato pelas grandes campanhas publicitárias.
Alguns compraram empresas. Outros saíram de vilas operárias para morar em imóveis de bairros nobres. São assediados pela classe política e empresarial, e já aprenderam a circular em salões e roteiros internacionais.
Responsável pela verba publicitária, pelo relacionamento com a mídia e pela distribuição de recursos para programas sociais e ambientais (só em 2008 foram destinados R$ 544 milhões para mais de 2.300 projetos), a Comunicação Institucional é o abrigo preferencial dos ex-sindicalistas. Sete deles estão lá, entre os quais Wilson Santarosa, ex-presidente do Sindicato dos Petroleiros de Campinas (SP), que comanda a gerência. Além dessa, as quatro gerências regionais, a Comunicação de Crise e a Gerência de Relacionamento (Comunicação interna) estão sob o controle de ex-dirigentes sindicais.
Demitido por greve hoje gerencia crises
O gerente de Crise, Erasmo Granado Ferreira, é o exemplo mais emblemático dessa mudança de atitude dos sindicalistas. Como dirigente do SindiPetro de Campinas, partiu para o confronto com a estatal e acabou demitido na greve de 1983, sendo anistiado em 2004. Hoje, comanda com zelo extremo o controle de dados que possam comprometer a imagem da empresa.
Com 1.150 funcionários, a Comunicação Institucional gastou nos últimos três anos mais de R$ 900 milhões anuais. Seus gerentes são acusados de favorecer prefeituras aliadas na distribuição de recursos sociais.
Este ano, por exemplo, o PT lidera as prefeituras do Nordeste que tiveram festas juninas patrocinadas pela empresa — 20 de um total de 86, seguidas pelo PMDB, com 12.
O RH é outro setor estratégico nas mãos de sindicalistas. O gerente, Diego Hernandes, ex-dirigente do SindiPetro de Mauá, responde pela relação com sindicatos, associações de classe e a Petros. Apesar da experiência, a tarefa é espinhosa. O grupo de Diego deixou de ser maioria absoluta no setor petroleiro — dos 17 sindicatos, seis são dissidentes — e o gerente, ao lado do presidente da empresa, José Sergio Gabrielli, já foi alvo de enterro simbólico realizado por aposentados.
No setor de Gás e Energia, o gerente de Desenvolvimento Energético, Mozart Schmitt de Queiroz, é exdirigente do SindiPetro do Rio. Ele cuida de temas como o biodiesel.
Na presidência, eram dois ex-dirigentes, mas o staff subiu para três com a chegada de Rosemberg Pinto, transferido da Comunicação após ser alvo de denúncia por uso político de verbas sociais.
Empresa patrocinada levou Santarosa a Roland Garros
Ex-dirigente do SindiPetro Campinas e da CUT-SP, executivo controla verbas de publicidade e patrocínio
A Koch Tavares, empresa de marketing esportivo patrocinada pela Petrobras, levou pelo menos duas vezes o gerente executivo de Comunicação Institucional da estatal, Wilson Santarosa, para assistir ao torneio de Roland Garros, em Paris. Nas duas ocasiões, o executivo teria ficado cinco dias na capital francesa. O diretor comercial da Koch, Douglas Jorge, admitiu a possibilidade de ter havido mais uma viagem: — Duas, com certeza. Mas podem ter sido três. Não me lembro bem.
Ele foi convidado porque, durante o torneio, se reuniu com representantes da Associação de Tênis Profissional para discutir a internacionalização da marca Petrobras em eventos de tênis. Roland Garros era uma boa oportunidade.
Somente no ano passado, a estatal repassou R$ 8,3 milhões para a Koch, patrocinada pela empresa desde 2004, quando lançou a Copa Petrobras de Tênis, na forma de uma série de torneios pela América do Sul (Roland Garros não tem patrocínio da Petrobras). Foi neste ano, segundo Douglas, que a Koch teria promovido a primeira viagem a Paris. Geralmente, a Koch hospeda os seus convidados vips no luxuoso hotel Plaza Athénée, mas o diretor Comercial afirma não se recordar onde o executivo ficou.
Mulher é lotada na Transpetro, e filha, em ONG parceira Santarosa comanda as verbas de publicidade e patrocínio da Petrobras desde 2003. Quando foi chamado, ele estava à frente da Ceasa, a central de abastecimento de Campinas, na gestão do PT. Ex-presidente do SindiPetro Campinas, ex-dirigente da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e da CUT-SP, nunca foi uma liderança do partido.
Pelo menos mais dois parentes seus têm relação com a Petrobras.
Geide Miguel Santarosa, segunda mulher e ex-assessora de imprensa do SindiPetro Campinas (onde se conheceram), é ouvidora-geral da Transpetro. O casal mora com a filha, pré-adolescente, na Zona Sul do Rio.
As duas filhas do primeiro casamento ficam em Campinas. Uma delas, a bióloga Patricia Lia Santarosa, trabalha há três anos numa entidade que tem parceria com a estatal na cidade, a Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO). Criada por lei a estatal na cidade, a Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO). Criada por lei municipal há 28 anos, a fundação trabalha na preservação da Mata de Santa Genebra, no bairro de Barão Geraldo.
Em 2003 e 2004, a Petrobras firmou um convênio com a FJPO para o plantio de uma área de 55 mil metros quadrados no entorno da mata utilizando mudas do viveiro local. O patrocínio, de acordo com a prefeitura, foi de R$ 126 mil. Na reserva florestal e no site da fundação, a Petrobras consta como parceira da Mata de Santa Genebra até hoje, assim como a Comgás e outras patrocinadoras, mas, de acordo com o presidente da fundação, José Aires de Moraes, a estatal não financia projetos “há anos”.
Moraes, que tomou posse como presidente da entidade em janeiro, afirmou que sabe apenas da parceria da FJPO com a Petrobras para a recuperação da borda da mata, e não sabia dizer o valor total do projeto. Sobre a bióloga Patrícia Lia Santarosa, Moraes afirmou que não existe um quadro de funcionários da própria fundação, e que todos são cedidos por parceiros ou pela prefeitura.
— Patricia foi cedida pela prefeitura. É uma ótima funcionária.
Formada na Unicamp, ela é coordenadora técnico-científica da fundação. Em janeiro, foi nomeada para a Comissão de Licitação da FJPO, de acordo com o Diário Oficial da prefeitura. A prefeitura foi procurada para informar se Patrícia é funcionária de carreira ou se tem cargo comissionado. No entanto, até o fechamento da edição, a assessoria de imprensa não retornou os telefonemas.
O Globo
EAgoraBr
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